Reino Unido sai da União Europeia. Retoma seu pragmatismo político e sua independência

Depois de muita negociação, conversas, críticas, elogios, choros e sorrisos, o Reino Unido deixou neste primeiro dia de 2021 de fazer parte da União Europeia. Grã-Bretanha e Irlanda do Norte faziam parte do grande acordo aduaneiro e político desde 1973. Em 2016. Um plebiscito perguntando se os habitantes queriam continuar na União Europeia decidiu pela saída do bloco. Por 52% a 48%, os habitantes do Reino Unido preferiram “sair” da Europa, ficando livres para decidir seus caminhos políticos.

Ficar “livre” para decidir seus caminhos políticos significa à maioria dos moradores do Reino Unido deixar de submeter-se aos desígnios ditados pela burocracia comunitária instalada em Bruxelas, na Bélgica. A cidade belga é sede da Comissão Europeia, entidade supranacional toda-poderosa instituída em 1958, como o resultado da Comunidade do Aço e do Carvão, iniciada em 1951.

A história do Brexit, da saída dos britânicos da Europa neste primeiro ano de 2021 precisa retroceder 70. Em 1951. França e Alemanha, rivais europeias históricas que fizeram pelo menos três guerras em menos de 100 anos, decidiram melhorar a relação e constituir uma união para tornar comuns as produções de aço e carvão dos dois países. Juntaram-se às duas nações Itália, Bélgica, Luxemburgo e Holanda. Este foi embrião da União Europeia como conhecemos hoje, com seus 27 países e boa parte deles usando o Euro como moeda comum.

O Reino Unido demorou quase vinte anos para entrar na Comunidade. O fez em 1973. Apesar de participar da união aduaneira, nunca adotou o Euro como moeda. Preferiu ficar usando sua tradicional Libra. Países como Alemanha, Itália, França, Espanha, Portugal e Grécia, entre outros, deixaram para a história suas lendárias moedas. Em 1999, para dar lugar à moeda europeia, deixaram de circular o Marco, a Lira, o Franco, a Peseta, o Escudo e o Dracma, respectivamente os dinheiros alemães, italianos, franceses, espanhois, portugueses e gregos.

Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales nunca se sentiram europeus, de fato. Nas duas grandes guerras do século 20, britânicos sempre olharam para a Europa como um continente separado de suas ilhas, como geograficamente são. Nos dois grandes conflitos iniciados na Europa e espalhados pelo mundo, britânicos viram o continente deixar-se tomar pelas forças de ocupação, especialmente as alemãs. Ainda viva na memória estava a tomada do continente pelas forças francesas de Napoleão, ainda no início do século 19. Nas três ocasiões, o Reino Unido viu-se compelido a agir contra a invasão e a derrubada de fronteiras dentro do continente. Precisava agir, pois a força de quem ganhava as batalhas na Europa poderia tomar, em pouco tempo, as ilhas britânicas.

Nos três episódios, tanto na expansão napoleônica, quanto nas duas guerras mundiais do século 20, a Inglaterra juntou forças e foi vitoriosa. Mesmo na Segunda Grande Guerra, quando precisou fortemente da ajuda norte-americana para derrotar as tropas do nazismo. O Reino Unido saiu melhor das guerras. Ou, pelo menos, vivo. No pós-guerra do século 20, nos anos de 1940 e 1950, o Império Britânico deixou de ser império e muitas dos seus territórios no Caribe e no Pacífico foram repassados aos Estados Unidos.

Voltando ao plebiscito de 2016. Os habitantes do Reino Unido decidiram por não ficar mais sob o jugo e o mando da Comissão Europeia. Quem há menos de um século era um império (“O Império onde o Sol nunca se põe”), queria voltar a, pelo menos, ser dono do seu nariz sem precisar dar satisfações à burocracia de Bruxelas.

Entre o plebiscito de 2016 e a saída definitiva no primeiro dia de 2021, houve muita discussão entre os ingleses em si, e entre ingleses e os “europeus” do continente, representados pela Comissão Europeia. Além da questão política, onde o Reino Unido deixa de fazer parte de uma unidade supranacional importante no cenário das nações, há todo um arcabouço econômico e financeiro que deixa de existir entre Reino Unido e Europa. Haverá a limitação de circulação de pessoas, de mercadorias e os transportes vão deixar de ser facilitados.

No entanto, apesar das dificuldades aparentes, os ingleses que optaram por sair da União Europeia veem o Brexit como oportunidade de governar a si mesmo sem a interferência de uma autoridade em Bruxelas, na Bélgica. Questões como a imigração dos norte-africanos, o combate ao terrorismo e a relação com outros países estão agora mais “na mão” dos ingleses. Agora a decisão e a responsabilidade é deles.

Na prática, agora não há mais as permissões automáticas para os imigrantes entrarem no Reino Unido, britânicos e europeus precisarão de passaportes para as viagens, além de seguros de saúde e demais documentos específicos. Tudo isso, até a última semana de dezembro de 2020 eram comuns da União Europeia.

Com a saída da União, o Reino Unido já assinou acordos comerciais com Japão, Canadá, Suíça, Singapura, México, Chile e está negociando cartas de intenções com Austrália e Nova Zelândia.

A saída da União Europeia tem muito a ver com a natureza pragmática que conduziu a política durante todo o crescimento e o auge do Império Britânico. Esse sentimento pragmático ficou um pouco adormecido entre os anos de 1990 e 2010, mas ressurgiu com força a partir de 2015. Tal sentimento já fora escrito por um primeiro-ministro inglês, William Gladstone, em carta à Rainha Vitória em 1869:

“À Inglaterra deve reter em mãos os meios de avaliar as próprias obrigações quanto aos vários estágios de fatos, à medida que ocorram; não deve limitar-se ou privar-se de suas própria liberdade de escolha em virtude de declarações feitas a outras potências, no real ou no suposto interesse destas, do qual eles queriam ser, no mínimo, intérpretes conjuntos”.

Há muito tempo, os ingleses querem ser senhores de seus destinos. E não abrem mão disso, apesar do plebiscito ter mostrado uma votação apertada em 2016.

Publicado por Miguelito Medeiros

Editor da Rivazto, consultor de Marketing, Comunicação & Política

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: